MOUNTAIN VOICES

Para esta edição do Mountain Voices conversei com um montanhista que tem muita história pra contar e como somos todos loucos por histórias de montanha acho que será uma conversa muito agradável. A vida dele se funde com a história recente do montanhismo brasileiro, são 48 anos de idade sendo 35 dedicados às montanhas, com mais de 2500 excursões, mais de 320 vias conquistadas em rocha, 54 cumes virgens e picos nevados, alguns com mais de 6000 m, incluindo Andes, Alpes, Pirineus e Antártica. Pioneiro e descobridor de inúmeros centros de escalada do país, entre outros: Morro da Pedreira (Serra do Cipó – MG), Serra do Lenheiro ( São João Del Rei – MG), Pedra Branca (Caeté – MG), Aderências de Timóteo – MG, Pontões de Jacinto / Rubim – MG, Fendas de Guaratiba (RJ), Parede dos Ácidos (RJ) e Contraforte do Pão-de-Açúcar (RJ). Pioneiro também na utilização de nuts no Brasil, tendo conquistado uma das primeiras vias esportivas em móvel (Fissura Tropical – 1979 – VIsup) com José Luiz Losada e uma das primeiras grandes paredes em móvel (Chaminé Macacu – 1981 – 400m – 6 VI E4/E5) com Ricardo de Moraes.

Para os que o conhecem as referências acima, são suficiente para identificar, para os que ainda não o conhecem, vamos conversar um pouco com o montanhista, ambientalista, escalador, conquistador e precursor de muitos: Tonico Magalhães.
Geólogo de formação, carioca de nascimento, reside em Belo Horizonte desde 1985, onde trabalha. Atuante em questões ambientais foi um dos responsáveis pela criação, entre outras, da APA (Área de Proteção Ambiental) do Morro da Pedreira nas imediações da Serra do Cipó em Minas Gerais, considerada uma das maiores APAs Federais do país, possuidora de notáveis cavernas e um dos melhores centros de escalada em rocha do Brasil.

Tonico, suas conquistas em rocha começaram em 1977 e a não ser pelo ano 1985, até hoje você conquistou, em geral, mais de dez vias de escalada por ano sendo a última (Pr. Testa de Aço -Parede de Aço – MG) , em 28 de outubro de 2007. Somando um total de 328 vias e 54 cumes virgem em mais de 30 anos. Você nunca parou de escalar. Fale um pouco sobre o inicio, as primeiras conquistas, como a Face Oposta do Escalavrado – P.N.S.O. e Paredão Gil Sobral Pinto – Pedra da Cruz em 77, Paredão Genesis – Pico da Tijuca em 78,  Paredão Ás de Espadas (RJ) em 79, Paredão Pedra que Chora – Petrópolis em 83. Além claro da Fissura Tropical em 79 e Chaminé Macacu em 81. Como era a escalada brasileira nesse final de anos 70 e 80?
A escalada nos anos 70 e 80 se caracterizava pela falta de material. As cordas, mosquetões, cadeirinhas, etc, eram de difícil aquisição uma vez que quase não existiam fabricantes nacionais adequados. As atuais sapatilhas eram inexistentes no Brasil e escalávamos de tênis, normalmente de quichute com as travas dianteiras cortadas. O magnésio não era conhecido até o princípio dos anos 80. O resultado disso é que a escalada tornava-se muito mais difícil. Hoje tento escalar com tênis e sem magnésio e não saio do lugar. Um lance de quinto grau, por exemplo, passa a ficar bem mais difícil. Muitas vezes fiz escaladas consideradas difíceis até hoje, como por exemplo o Lagartão e o Secundo no Pão de Açúcar, Face Leste do Pico Maior de Friburgo, com corda na cintura, de tênis e sem magnésio. Não sei como conseguia… 

As escaladas daquela época eram as que hoje consideramos escaladas clássicas, onde o sabor da aventura era o melhor ingrediente. Não existiam as escaladas esportivas e menos ainda a competição em muros. Até hoje prefiro escalar com boa dose de aventura. 
Historicamente, depois do declínio da velha geração inovadora do Centro Excursionista Carioca do princípio dos anos 70, encabeçada por Rodolfo Chermont e Jean Pierre Von der Wied, no final dos anos 70, o clube da moda no Estado do Rio passou a ser o Centro Excursionista Petropolitano, de onde sou sócio até hoje. Depois de uma briga no CEB em 77, para lá se dirigiram vários escaladores de ponta da época tais como André Ilha, Dario dos Santos, Otávio Vasconcelos, dentre outros. Depois, uma nova safra, iniciada em 79/80, se juntou à nossa no CEP com Alexandre Portela, Sérgio e Giovani Tartari, etc. Este grupo pode ser considerado, a grosso modo, como a espinha dorsal da escalada carioca dos anos 80. 

Vamos então falar um pouco sobre as vias que você pergunta. A Face Oposta do Escalavrado foi a segunda via daquela montanha na Serra dos Órgãos em Teresópolis. A equipe era eu, Mário Arnaud e André Craveiro (estes dois conquistaram anos depois a Via Italianos no Pão de Açúcar). Era o mês de julho de 77 quando nós três subimos os 560 metros da via em um dia apenas. Dormindo no cume com um frio terrível e felizes. Esta foi a minha primeira conquista no estilo aventura, com dezoito anos de idade. A via nunca foi repetida, teve apenas uma tentativa do Sérgio Tartari, impedida pela chuva.

O Paredão Gênesis foi conquistado com o Ricardo de Moraes no Pico da Tijuca no Rio em 78. Era muito divertido, saíamos de casa à tarde, dormíamos na Floresta da Tijuca, normalmente na varanda da simpática Capela Mayrink. No dia seguinte batíamos grampo até não poder mais. Certa vez, após mais uma investida de conquista, voltamos pela trilha pegando vários atalhos devido à pressa para chegar em casa. Lá pelas tantas percebemos que o atalho que havíamos pegado tinha se acabado na mata. Como já tínhamos descido muito resolvemos continuar varando mato e descendo sempre. Que roubada, chegamos já de noite em algum lugar em Jacarepaguá que até hoje não sei onde fica… Foi-se o compromisso em casa…

Por falar em Ricardo de Moraes, foi com ele que conquistei o Ás de Espadas no Pão-de-Açúcar (juntamente com o Paulo “Bruxo” 60) e a Chaminé Macacu (em Cachoeiras de Macacu). O Ás de Espadas, nome dado pelo Ricardo, foi um marco em 79. Era muito técnico para os calçados de escalada disponíveis na época. Até hoje é considerado uma das Escalada-Símbolo da Urca. Foi a primeira via daquela face da montanha. O traçado projetado, até dois terços da via, quase não possuía vegetação na pedra e isso nos motivou a conquistá-la uma vez que aquele “corredor” sem vegetação, com agarrinhas pequenas, mostrava-se tentador! Levamos bastante tempo para conquistar devido à dificuldade de parar naquelas agarras para bater os grampos. No princípio dos anos 80 guiei a via totalmente em livre com sapatilha e magnésio, foi uma grande emoção…

A conquista da Chaminé Macacu, fenda impressionante localizada na Pedra do Colégio em Cachoeira de Macacu, foi algo de inimaginável para mim na época. Foi conquistada em março de 81, junto com o Ricardo. Juntamos todos os móveis que tínhamos, desde hexecentrics e nuts de cabo, até artefatos caseiros. Não existiam friends ainda no Brasil.  Partimos para aquela via armados com o que tínhamos e dispostos a terminá-la em um dia apenas usando o máximo de nuts. O resultado é que conseguimos o nosso objetivo subindo os 400 metros da fenda apenas com nuts.  A conquista de uma via tão longa, difícil e exposta (6 VI E4/E5) com  o uso exclusivo de nut, foi muito marcante para a época. Pelo que me consta esta via foi repetida apenas uma vez em cordada guiada pelo escalador Sérgio Tartari.

Considerando que você se manteve fiel e ativo ao montanhismo desde então, o que se mantém imutável nas montanhas pra você e o oposto a isso, o que mais mudou?

O que se mantém imutável nas montanhas é o interesse, que ainda persiste, pela escalada clássica e aventurosa. Felizmente ainda existem escaladores que buscam conquistar um cume virgem, fazer vias em locais distantes e selvagens, aproveitar uma fenda para escalar em móvel, curtir um nascer ou um pôr do sol, tomar um banho de cachoeira após escalar, coisas deste tipo… Já o que mais mudou na montanha é o que vem se alastrando de forma tola em várias unidades de conservação brasileiras – a obrigatoriedade de se contratar um guia local para entrar. Esta prática desrespeita e ignora a atuação quase centenária da atividade excursionista brasileira organizada que ao meu ver deveria ser convidada a estar totalmente engajada nesta questão. Obrigar um montanhista experiente, ou de clube, instruído e responsável a andar com uma pessoa despreparada é o fim da picada, literalmente. Tenho tido muita preguiça de freqüentar locais onde esta prática exista e sinto não ter tempo de brigar mais para que isso seja minimizado.

Em 1984 você descobriu o potencial da Serra do Lenheiro (São João del Rei – MG) e em abril do mesmo ano conquistou as primeiras seis vias móveis em companhia de André Ilha, com destaque para as Fissuras Spartacus (IV) e Dança Macabra (V), e em 2000 descobriu e tornou-se o maior conquistador do que considera o Último Grande Reduto de Pães-de-Açúcar Virgens do País, localizado nos municípios de Jacinto e Rubim em Minas Gerais, onde você conquistou até o momento 24 cumes através de vias bem extensas localizadas nas principais montanhas. Conte um pouco sobre estes “achados” e sobre suas escaladas em Minas Gerais.

Em janeiro de 84 eu estava fazendo uma atividade de campo para meu curso de mestrado em geologia na região do Sul de Minas quando conheci o lado oculto da Serra do Lenheiro. Digo oculto porque a face não é visível da cidade de São João Del Rei. Quando olhei pela primeira vez para a parede das vias quase caí para atrás. Eram muitas fendas e um potencial para escaladas móveis impressionante. Existiam apenas duas vias grampeadas feitas pelo batalhão do exército da cidade, para treinamento de montanha. Não demorei e convidei o André Ilha, meu companheiro desde 70, para me acompanhar na tarefa de fazer as primeiras fendas em móvel do local. Em abril daquele ano conquistamos as primeiras seis vias com o uso de nuts. Hoje, para nosso orgulho, o Lenheiro é conhecido como um dos melhores locais para escalada móvel de Minas e sede de memoráveis encontros de escaladores. 

A história das escaladas em Jacinto e Rubim (baixo vale do Rio Jequitinhonha) é bem interessante. Nos anos 70, eu estava num ponto de ônibus no Rio de Janeiro, com mochila e corda nas costas quando um homem me abordou perguntando se eu gostava de escalar. Após escutar minha afirmativa ele disse: “já que você gosta de escalar montanhas, tem que conhecer Rubim em Minas Gerais”. Aquele nome ficou gravado na minha cabeça. Em 99 durante um trabalho de campo geológico nas imediações, vi uma placa indicando – Rubim… Não perdoei, peguei a camionete e fui conhecer o local num domingo. Lá chegando novamente tomei outro susto. Eram muitos pontões graníticos nos arredores, a maioria até sem nome. Fiz um breve reconhecimento da região e constatei que deveriam existir mais de uma centena de montanhas virgens. Era tudo o que eu precisava para me alimentar do prazer das montanhas nos muitos anos vindouros. Em julho de 2000 novamente levei o André Ilha, e a Kate Benedict, para estrear o local e conquistamos duas espetaculares montanhas – A Pedra do Salão e a Pedra da Macambira. Daí para frente passei a ir duas vezes por ano para lá, escalando também as montanhas de Jacinto, cidade vizinha. Já conquistamos no local 24 montanhas virgens, além de muitas vias isoladas, com destaque para a Pedra Misteriosa, uma das montanhas mais bonitas que conquistei. Meus companheiros de conquista mais assíduos no local são: meu filho Juliano Magalhães, Daniel Mariano, Fábio Cotta e Paulo Bandeira.

O potencial do local não está nem arranhado com as nossas conquistas e certamente muita diversão há de dar para nós nos próximos anos, notadamente no estilo escalada aventurosa. 

Recentemente conseguimos através de amigos entusiastas da cidade de Jacinto, secretário Sílvio Oliveira e o prefeito Antonio Martins, a transformação da área onde ficam as montanhas (20 x 40 km) em várias APA’s municipais e agora buscamos apoio para a criação de um Parque Estadual ou Nacional,  mais do que merecidamente, em função da importância do acervo natural.

Muitos outros trabalhos de conquista em Minas podem ser citados. Vou falar rapidamente sobre dois: as vias móveis da Serra do Cipó e as Paredes de Aço em Ferros.

Em 86, logo depois de sair do Rio e vir para Belo Horizonte trabalhar, conheci a Serra do Cipó numa excursão para ver cavernas. Na ocasião, percebi a grande quantidade de fendas no calcário de lá (Morro da Pedreira). Daí em diante comecei a conquistar compulsivamente vias móveis no local com os primeiros escaladores da atual geração mineira, meus alunos. Foram mais de 60 vias. Hoje o Cipó pode ser considerado o maior ponto de escaladas móveis do país, sem contar a qualidade e fama das vias esportivas grampeadas.  
Recentemente adquiri uma fazenda nas imediações da cidade de Ferros (170 km de BH). Dentro da propriedade, para meu deleite, encontrei o que denominamos Parede de Aço. Trata-se de uma fantástica escarpa granítica com cerca de 350 metros de altura máxima onde já foram feitas cerca de 30 vias. Este é o meu xodó atual…

Como conquistador da maioria das vias móveis no Complexo do Baú (Pedro Leopoldo – MG) como Doce Vida – VIsup e Até o Fim – VIsup, qual sua opinião quanto ao fechamento do local, propriedade privada e valioso patrimônio da escalada mineira? Você acredita na atuação da comunidade de montanha para reverter quadros deste tipo no Brasil?

Foi realmente doloroso ver o Baú e a Lapinha serem fechados para a escalada. No caso da Lapinha foi pior, a prefeitura de Lagoa Santa fechou arbitrariamente o local sem motivo algum, por sugestão de uma arqueóloga que lá trabalha. Achou-se que a atividade de escalada impactava sensivelmente o ambiente cárstico. Depois de tentamos convencer do contrário, nada foi feito e a coisa continua. Sobre o Baú é a mesma coisa. Alegou-se que o IBAMA fechou a área sem motivo e sem estudo. Agora estamos diante de uma situação complicada para comprovar que o excursionista pode ajudar na preservação da área e não a impacta significativamente. A solução poderia passar por liberar acesso controlado para membros de clubes excursionistas sérios. Isto fortaleceria as entidades e voltaria a abrir as portas das áreas “proibidas”. 

Para finalizar, três perguntas em uma: Melhor lembrança de montanha? Maior arrependimento? Planos?
Não tenho melhor lembrança, é uma pergunta muito difícil de responder para quem gosta da montanha. Toda excursão, em geral, nos dá uma boa lembrança. Por outro lado, não tenho arrependimentos. Meu pai sempre procurou me dizer para agir na vida de forma a não me arrepender depois. Assim procuro fazer…
Tenho um plano especial para breve – escrever um livro de memórias da montanha, coisa que já iniciei.

O SÍTIO ARQUEOLÓGICO DA FAZENDA RETIRO DAS ÁGUAS – FERROS – MG

1)     INTRODUÇÃO

 
A Fazenda Retiro das Águas em Ferros – MG é palco das conhecidas “Paredes de Aço” onde se pratica escalada desde o ano 2006. O local, distante cerca de 170 quilômetros de Belo Horizonte, já possui 100 vias com extensão variando de 30 a 250 metros.
Ao lado da sede da fazenda foi encontrado um sítio arqueológico tupi-guarani caracterizado por grande quantidade de cerâmica freqüentemente decorada com pintura ou formas impressas em alto ou baixo-relevos.

2)       A OCUPAÇÃO HUMANA PRÉ-HISTÓRICA DE MINAS GERAIS
 
Há mais de 12 mil anos, bandos isolados de homens pré-históricos chegaram casualmente ao território hoje pertencente a Minas Gerais. Esses grupos humanos eram formados por conjuntos de famílias que tinham de 20 a 30 membros. Viviam da coleta de vegetais, frutos, raízes e sementes, da caça de pequenos e grandes animais e da pesca. São chamados pelos arqueólogos de COLETORES-CAÇADORES.
 
O território onde moravam era muito importante para a sobrevivência das famílias. Grande e variada, a área que ocupavam continha lagos, rios, matas e cerrados. Os recursos naturais eram explorados ao longo do ano, exigindo dos grupos longos deslocamentos conforme a época de frutificação, acasalamento de animais e da subida dos peixes pelos rios para a reprodução, a piracema.
 
Por volta de 7 mil anos atrás, esses homens começaram a polir a pedra e fabricaram seus primeiros machados. 
Há cerca de 4.500 anos o milho passou a ser cultivado. Esse foi um momento extremamente importante para eles. A coleta não foi abandonada, mas a partir daí os bandos podiam aumentar sua população sem provocar desequilíbrios no meio ambiente, pois passaram a produzir parte do seu alimento e se tornaram HORTICULTORES. Surgem, então, as aldeias, que eram pequenas no início. 
 
A cerâmica começou a ser fabricada por volta do nascimento de Cristo (2 mil anos atrás). Os alimentos podiam, a partir de então, ser preparados de maneiras diferentes nas panelas de barro, a água podia ser armazenada em maior quantidade e os grãos podiam ser melhor guardados e conservados. 
 
Ao redor do ano 1000 depois de Cristo já existiam aldeias enormes, com mais de mil habitantes. A população crescia em todo o território brasileiro. Estima-se que havia cinco milhões de indígenas no Brasil quando os portugueses aqui chegaram em 1.500.
 
Em Minas Gerais, essas populações indígenas começaram a ser destruídas por volta de 1680, com a chegada dos bandeirantes paulistas à procura de ouro e pedras preciosas. Hoje existem, apenas seis tribos, perfazendo cerca de 7.200 indígenas.
 
Os locais onde hoje são encontrados os vestígios deixados por essas populações antigas são chamados SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS.
 
 

3)      PRÉ-HISTÓRIA DO VALE DO RIO DOCE
 
A Fazenda Retiro das Águas localiza-se na margem direita do Rio Tanque, um dos principais afluentes do Rio Santo Antônio, este último com ótima qualidade de água e grande tributário do Rio Doce. 

Ainda se conhece muito pouco sobre a pré-história do Vale do Rio Doce. Os trabalhos realizados para salvar os vestígios deixados pelos homens pré-históricos, possibilitaram aos arqueólogos conhecer os padrões culturais dos principais grupos que habitaram a região.
 
Essa parte do Brasil se caracteriza por um relevo ondulado, onde se destacam morros de topos arredondados com extensos corredores fluviais onde predominantemente se distribuíram as populações pré-históricas. A vegetação principal é a mata atlântica, bastante degradada por atividades agropecuárias.
 
 
3.1)       OS PRIMEIROS HABITANTES
 
Hoje, sabe-se com certeza, pelos estudos realizados, que o homem pré-histórico chegou a Minas Gerais há mais de 12 mil anos. No Vale do Rio Doce podem ter chegado há cerca de 8.000 anos.
 
Nas áreas já pesquisadas pelos arqueólogos foram identificados alguns sítios arqueológicos pertencentes a esses grupos. A maioria corresponde a locais onde os instrumentos de pedra eram fabricados. Apenas quatro desses sítios arqueológicos apresentam sinais de terem sido locais de moradia.
 
No verão, quando os frutos são abundantes, esses COLETORES-CAÇADORES, geralmente moravam nas serras. Nas outras estações eles viviam nas proximidades dos grandes rios, onde a caça e a pesca eram mais disponíveis.
 
As ferramentas fabricadas e utilizadas por esses homens parecem ser, à primeira vista, simples pedras brutas. Mas ao se observar essas peças com atenção, vê-se que elas apresentam pequenos lascamentos e possuem um formato especial.
 
Os instrumentos típicos produzidos por esses antigos habitantes eram os raspadores frontais plano-convexos, mais conhecidos como “lesmas”. Eles produziram também um grande número de facas e outros tipos de raspadores usados para fabricar instrumentos de madeira e osso, cortar e desossar a carne da caça. Um outro tipo de artefato, dificilmente encontrado, é a ponta de projétil.
 

4)      OS POVOS CERAMISTAS DA REGIÃO
 
As vasilhas e outros objetos de cerâmica, apesar de serem encontrados quase sempre quebrados, são capazes de fornecer muitas informações importantes sobre seus fabricantes. Por meio deles podemos saber como esses grupos preparavam seus alimentos, se fiavam o algodão para fabricar redes e bolsas, e até mesmo como enterravam os seus mortos.
 
Em qualquer sociedade humana existem variações culturais, como a língua, a música e a religião, que permitem diferenciar os grupos uns dos outros. Nos povos ceramistas pré-históricos essas diferenças apareciam também em suas vasilhas de barro. O estudo da forma, tamanho e acabamento dos potes permite identificar o grupo cultural que os fabricou.
 
4.1) A TRADIÇÃO ARATU
 
Os arqueólogos chamam de TRADIÇÃO ARATU um determinado grupo de HORTICULTORES que fabricavam cerâmicas. Esses homens pré-históricos, antepassados de grande parte dos índios mineiros, habitavam extensas zonas de vegetação de cerrado, com manchas de mata ao longo dos rios.
 
O território que esses grupos ocupavam incluía uma grande porção do Estado de Minas Gerais, partes dos Estados de Goiás, São Paulo, Espírito Santo e de alguns estados do Nordeste.
 
A TRADIÇÃO ARATU teve suas origens há mais de 2 mil anos e com certeza os grupos indígenas dessa cultura já estavam instalados em Minas por volta de 1.500 anos atrás. De um total de 164 sítios arqueológicos contendo restos de cerâmica, descobertos no Triângulo Mineiro por exemplo, apenas dez não pertenciam a essa Tradição. Portanto, pode-se concluir que os grupos ARATU dominavam aquele território e consideravam a região um local ideal para viverem.
 
Suas aldeias ficavam situadas em áreas de mata galeria, próximas ao cerrado, junto a algum córrego, afluente do rio principal. A instalação das casas, sempre perto de um afluente do rio, se dava em função da necessidade de terem água limpa para o abastecimento. 
 
A distância entre a aldeia e o rio geralmente não ultrapassava 500 metros. É interessante notar que eles conheciam perfeitamente o nível máximo das cheias dos rios, até mesmo as maiores cheias, que costumam ocorrer a cada 20 ou 50 anos. Assim, eles nunca eram pegos de surpresa, ao contrário do que acontece hoje nas nossas cidades.
 
As aldeias não duravam muitos anos em um mesmo local. Assim que as terras das lavouras davam sinal de cansaço ou que as pragas começavam a atacar as plantações com mais freqüência, era hora de mudar.
 
O milho era o principal alimento cultivado por esses povos. Certamente deviam plantar outros vegetais como tomate, amendoim, cará, batata doce, feijão, pimenta e um pouco de mandioca. Outras plantas como cabaça, algodão e fumo também faziam parte da roça, embora não fossem comestíveis. A presença de rodelas de cerâmica, usadas para tecer o fio do algodão, indica que provavelmente faziam redes, bolsas e sacolas.
 
A maioria das panelas de barro feitas pelas mulheres das tribos desse grupo não tinha decoração. Apenas alguns potes de uso especial possuíam asas, bicos, cabos e alças. Eles ainda podiam ser decorados com linhas finas impressas ou com banhos de barro vermelho.
 
Os potes podiam ter a forma semi-esférica ou de tigelas rasas. Grandes vasos de forma cônica, que lembram uma pêra, eram usados para preparar as bebidas alcoólicas consumidas nas festas da aldeia. 
 
Quando alguém importante da tribo morria, esses vasos eram usados como caixão, que os arqueólogos chamam de urnas funerárias. Foram encontradas, dentro dessas urnas, vasilhas de cerâmica formadas por duas tigelas rasas unidas lateralmente, e outras com forma de cabaça, de uso exclusivamente cerimonial. 
 
Os instrumentos eram feitos de pedra, como machados polidos, usados para a derrubada das árvores da mata. A abertura de clareiras era importante para o preparo das roças e instalação das aldeias. Blocos de arenito (rocha de areia) foram escavados e transformados em pequenos pilões. Pedras arredondadas (seixos rolados) eram usadas como martelos e batedores. Lascas de rocha eram utilizadas como facas, raspadores, plainas, furadores, e outros instrumentos, que serviam para cortar carne, trabalhar a madeira, o osso e as peles dos animais caçados.


            4.2) A TRADIÇÃO TUPI-GUARANI
 
Esta tradição arqueológica define um grupo de horticultores ceramistas que teriam surgido na Amazônia há 3 mil anos. Ela apresenta uma ampla distribuição por todo o território nacional, tendo chegado também às Guianas, ao Paraguai, ao Uruguai e ao norte da Argentina através da navegação dos grandes rios brasileiros. Suas aldeias são encontradas quase sempre próximas a esses rios.
 
A chegada dos TUPI-GUARANI à região do Vale do Rio Doce aconteceu um pouco antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Pelo menos mil anos antes, os povos da TRADIÇÃO ARATU já haviam se instalado por essa região e não permitiram que os TUPI-GUARANI ocupassem seu território.
 
As aldeias se localizavam sempre em áreas de mata, em vertentes suaves, e as roças, nas várzeas dos rios.
 
Além da caça e da coleta, também cultivavam vegetais. Tinham na mandioca a sua principal fonte alimentar, embora usassem também o milho. 
 
As formas características básicas da cerâmica da cultura TUPI-GUARANI são os potes, que têm o corpo com ângulos, e outras vasilhas bem abertas e rasas, semelhantes a grandes pratos, próprias para assar biju ou torrar farinha de mandioca.
 
Feitos para cerimônias, os recipientes de uso especial, apresentavam decoração pintada ou impressa no barro. A pintura desses potes geralmente era em 3 cores: fundo branco com linhas pretas e vermelhas formando figuras geométricas. As marcas impressas mais comuns eram feitas com as unhas (ungulado) ou por beliscões dados no barro ainda mole (corrugado).
 
As tribos sepultavam seus mortos mais importantes em grandes potes decorados (igaçabas em língua tupi), que anteriormente haviam sido utilizados para o preparo de bebidas cerimoniais.
 
Martelos de pedras roladas, quebra-cocos, polidores para osso, lascas para cortar, serrar, raspar, furar e ralar constituíam seus instrumentos de pedra.
 
Machados e cavadeiras (utilizados na derrubada das árvores e preparo da terra para plantio) e mãos-de-pilão (usadas para triturar o milho) constituíam seus artefatos de pedra polida.

 

5)      O ACERVO ARQUEOLÓGICO DA FAZENDA RETIRO DAS ÁGUAS
 
O sítio arqueológico em questão foi descoberto a partir da análise minuciosa de fragmentos cerâmicos que se assemelhavam com pedaços quebrados das telhas de antigo curral existente no local. Ao analisar o material percebeu-se que os mesmos eram formados por cerâmica decorada com pinturas, em diversas espessuras e de cor cinza avermelhada, indicando que as mesmas haviam sido queimadas em fogueiras. Nossa experiência anterior em salvamentos arqueológicos coordenados pelo Dr. Paulo Alvarenga Junqueira (ex-professor do Museu de História Natural da UFMG e atualmente diretor da empresa Arkaios Consultoria) nos ajudou a reconhecer a natureza arqueológica do material encontrado.
 
Localizado no município de Ferros – MG, o sítio arqueológico da Fazenda Retiro das Águas está situado a cerca de 10 metros de distância da sede da fazenda, numa área plana e bem drenada, localizada numa distância de cerca de 50 metros da junção do Rio Tanque com um pequeno afluente pela sua margem direita. O Rio Tanque nasce na Serra do Cipó e se junta ao Rio Santo Antônio a cerca de cinco quilômetros à jusante do sítio pesquisado. 
 
O relevo da área foi esculpido sobre rochas gnáissicas e se caracteriza por consideráveis desníveis marcados pelo contraste entre encostas de declividade média a alta com as planícies ribeirinhas ocupadas por aluviões e rampas de colúvio. A altitude local varia entre 420 e 780 metros.
 
Predominam na região os solos cinza-rosados oriundos da decomposição do gnaisse e os colúvios marrons argilo-arenosos. A cobertura vegetal do passado era de mata tropical mas hoje em dia encontra-se ocupada por pastagens e culturas. Acredita-se que boa parte da floresta original da baixada do Rio Tanque tenha sido destruída desde a época dos habitantes pré-históricos para a formação de plantações.
 
O clima tropical quente e úmido da região apresenta um índice pluviométrico variado, com média anual superior a 1.200 mm, sendo as chuvas concentradas nos meses de outubro a março. A temperatura média anual oscila entre 21ºC e 23ºC, com a máxima dificilmente ultrapassando os 35ºC.
 
Por causa da ótima qualidade dos solos, a área das baixadas do rio é utilizada, até hoje, para a agricultura com plantio de milho, feijão, hortas, pomares, cana-de-açúcar e forrageiras. Acredita-se que estas áreas eram plantadas desde as épocas pré-históricas.
  
No sítio descoberto foram encontrados, até agora, uma grande quantidade de fragmentos cerâmicos dispersos numa área de cerca 3.000 m². Este aldeamento está assentado na porção meso-inferior de vertentes de pouca declividade, próximo do pequeno curso de água que abastece atualmente a fazenda de água potável. 
 
As várzeas férteis ao redor do sítio parecem ter sido usadas pelos tupi-guaranis para plantio de lavouras de tubérculos (mandioca). A presença de vasilhas cerâmicas próprias para o preparo de farinha de mandioca (pratos) pode confirmar esta postulação. Até hoje na fazenda se produz enormes tubérculos de mandioca que surpreende a todos pelo grande tamanho e ótima qualidade.
 
Fragmentos de artefatos líticos lascados como quartzo indicam a presença de um ateliê de lascamento para fabricação de objetos cortantes. Foram encontrados também seixos arredondados de quartzo, possivelmente utilizados como batedores. Foram encontrados dois machados de hematita compacta polida que, segundo os arqueólogos, representam objetos de uso cerimonial.
 
Foram vistas significativas quantidades de amazonita (feldspato verde) que era usualmente utilizado pelos tupi-guaranis da região para o fabrico de adornos labiais e de orelha, além de pingentes finamente elaborados. Foi achado um pingente piramidal em bom estado 
 
Entre os tipos cerâmicos encontrados haviam fragmentos pintados, com engobo branco, faixas vermelhas e linhas pretas. Na decoração plástica predominava o ungulado, seguido do corrugado e por último do ponteado.
 
A amostragem reduzida, a ausência de escavação sistemática e a alta fragmentação dos cacos cerâmicos não permitiram ainda que as formas das vasilhas fossem reconstituídas, mas é comum nos utensílios desse grupo a presença de trempes e vasilhas bastante abertas, próprias para manejo de farinha de mandioca. Esse tubérculo é o alimento básico de subsistência desse grupo reconhecidamente belicoso e afeito à canoagem, meio de locomoção que os auxiliou a marcar presença em praticamente todos os rios navegáveis do leste do Brasil. Parece então que o Rio Tanque não deixou de ser navegado por sua canoas. 
 
Foram datados os fragmentos de cerâmica do sítio pelo método de termoluminescência. A idade apurada foi de 660 anos, isto é , mais de 150 anos  antes do Descobrimento do Brasil. Acredita-se que esta datação, aliada à escavação sistemática do sítio (coisa que pretende-se fazer em breve através de uma universidade), possam revelar decisivamente o modelo de habitação pré-histórica daquele vale afluente do Rio Doce. 

Como a Cultura Tupi-Guarani habitava basicamente o litoral brasileiro, é de se estranhar a presença deste sítio tão longe do litoral numa época em que eles ainda não estavam fugindo para o interior devido à chegada dos portugueses.