Geólogo
Montanhista
Ambientalista

O sítio arqueológico da Fazenda Retiro das Águas - Ferros - MG

1)     INTRODUÇÃO

 
A Fazenda Retiro das Águas em Ferros – MG é palco das conhecidas “Paredes de Aço” onde se pratica escalada desde o ano 2006. O local, distante cerca de 170 quilômetros de Belo Horizonte, já possui 100 vias com extensão variando de 30 a 250 metros.
Ao lado da sede da fazenda foi encontrado um sítio arqueológico tupi-guarani caracterizado por grande quantidade de cerâmica freqüentemente decorada com pintura ou formas impressas em alto ou baixo-relevos.

2)       A OCUPAÇÃO HUMANA PRÉ-HISTÓRICA DE MINAS GERAIS
 
Há mais de 12 mil anos, bandos isolados de homens pré-históricos chegaram casualmente ao território hoje pertencente a Minas Gerais. Esses grupos humanos eram formados por conjuntos de famílias que tinham de 20 a 30 membros. Viviam da coleta de vegetais, frutos, raízes e sementes, da caça de pequenos e grandes animais e da pesca. São chamados pelos arqueólogos de COLETORES-CAÇADORES.
 
O território onde moravam era muito importante para a sobrevivência das famílias. Grande e variada, a área que ocupavam continha lagos, rios, matas e cerrados. Os recursos naturais eram explorados ao longo do ano, exigindo dos grupos longos deslocamentos conforme a época de frutificação, acasalamento de animais e da subida dos peixes pelos rios para a reprodução, a piracema.
 
Por volta de 7 mil anos atrás, esses homens começaram a polir a pedra e fabricaram seus primeiros machados. 
Há cerca de 4.500 anos o milho passou a ser cultivado. Esse foi um momento extremamente importante para eles. A coleta não foi abandonada, mas a partir daí os bandos podiam aumentar sua população sem provocar desequilíbrios no meio ambiente, pois passaram a produzir parte do seu alimento e se tornaram HORTICULTORES. Surgem, então, as aldeias, que eram pequenas no início. 
 
A cerâmica começou a ser fabricada por volta do nascimento de Cristo (2 mil anos atrás). Os alimentos podiam, a partir de então, ser preparados de maneiras diferentes nas panelas de barro, a água podia ser armazenada em maior quantidade e os grãos podiam ser melhor guardados e conservados. 
 
Ao redor do ano 1000 depois de Cristo já existiam aldeias enormes, com mais de mil habitantes. A população crescia em todo o território brasileiro. Estima-se que havia cinco milhões de indígenas no Brasil quando os portugueses aqui chegaram em 1.500.
 
Em Minas Gerais, essas populações indígenas começaram a ser destruídas por volta de 1680, com a chegada dos bandeirantes paulistas à procura de ouro e pedras preciosas. Hoje existem, apenas seis tribos, perfazendo cerca de 7.200 indígenas.
 
Os locais onde hoje são encontrados os vestígios deixados por essas populações antigas são chamados SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS.
 
 

3)      PRÉ-HISTÓRIA DO VALE DO RIO DOCE
 
A Fazenda Retiro das Águas localiza-se na margem direita do Rio Tanque, um dos principais afluentes do Rio Santo Antônio, este último com ótima qualidade de água e grande tributário do Rio Doce. 

Ainda se conhece muito pouco sobre a pré-história do Vale do Rio Doce. Os trabalhos realizados para salvar os vestígios deixados pelos homens pré-históricos, possibilitaram aos arqueólogos conhecer os padrões culturais dos principais grupos que habitaram a região.
 
Essa parte do Brasil se caracteriza por um relevo ondulado, onde se destacam morros de topos arredondados com extensos corredores fluviais onde predominantemente se distribuíram as populações pré-históricas. A vegetação principal é a mata atlântica, bastante degradada por atividades agropecuárias.
 
 
3.1)       OS PRIMEIROS HABITANTES
 
Hoje, sabe-se com certeza, pelos estudos realizados, que o homem pré-histórico chegou a Minas Gerais há mais de 12 mil anos. No Vale do Rio Doce podem ter chegado há cerca de 8.000 anos.
 
Nas áreas já pesquisadas pelos arqueólogos foram identificados alguns sítios arqueológicos pertencentes a esses grupos. A maioria corresponde a locais onde os instrumentos de pedra eram fabricados. Apenas quatro desses sítios arqueológicos apresentam sinais de terem sido locais de moradia.
 
No verão, quando os frutos são abundantes, esses COLETORES-CAÇADORES, geralmente moravam nas serras. Nas outras estações eles viviam nas proximidades dos grandes rios, onde a caça e a pesca eram mais disponíveis.
 
As ferramentas fabricadas e utilizadas por esses homens parecem ser, à primeira vista, simples pedras brutas. Mas ao se observar essas peças com atenção, vê-se que elas apresentam pequenos lascamentos e possuem um formato especial.
 
Os instrumentos típicos produzidos por esses antigos habitantes eram os raspadores frontais plano-convexos, mais conhecidos como “lesmas”. Eles produziram também um grande número de facas e outros tipos de raspadores usados para fabricar instrumentos de madeira e osso, cortar e desossar a carne da caça. Um outro tipo de artefato, dificilmente encontrado, é a ponta de projétil.
 

4)      OS POVOS CERAMISTAS DA REGIÃO
 
As vasilhas e outros objetos de cerâmica, apesar de serem encontrados quase sempre quebrados, são capazes de fornecer muitas informações importantes sobre seus fabricantes. Por meio deles podemos saber como esses grupos preparavam seus alimentos, se fiavam o algodão para fabricar redes e bolsas, e até mesmo como enterravam os seus mortos.
 
Em qualquer sociedade humana existem variações culturais, como a língua, a música e a religião, que permitem diferenciar os grupos uns dos outros. Nos povos ceramistas pré-históricos essas diferenças apareciam também em suas vasilhas de barro. O estudo da forma, tamanho e acabamento dos potes permite identificar o grupo cultural que os fabricou.
 
4.1) A TRADIÇÃO ARATU
 
Os arqueólogos chamam de TRADIÇÃO ARATU um determinado grupo de HORTICULTORES que fabricavam cerâmicas. Esses homens pré-históricos, antepassados de grande parte dos índios mineiros, habitavam extensas zonas de vegetação de cerrado, com manchas de mata ao longo dos rios.
 
O território que esses grupos ocupavam incluía uma grande porção do Estado de Minas Gerais, partes dos Estados de Goiás, São Paulo, Espírito Santo e de alguns estados do Nordeste.
 
A TRADIÇÃO ARATU teve suas origens há mais de 2 mil anos e com certeza os grupos indígenas dessa cultura já estavam instalados em Minas por volta de 1.500 anos atrás. De um total de 164 sítios arqueológicos contendo restos de cerâmica, descobertos no Triângulo Mineiro por exemplo, apenas dez não pertenciam a essa Tradição. Portanto, pode-se concluir que os grupos ARATU dominavam aquele território e consideravam a região um local ideal para viverem.
 
Suas aldeias ficavam situadas em áreas de mata galeria, próximas ao cerrado, junto a algum córrego, afluente do rio principal. A instalação das casas, sempre perto de um afluente do rio, se dava em função da necessidade de terem água limpa para o abastecimento. 
 
A distância entre a aldeia e o rio geralmente não ultrapassava 500 metros. É interessante notar que eles conheciam perfeitamente o nível máximo das cheias dos rios, até mesmo as maiores cheias, que costumam ocorrer a cada 20 ou 50 anos. Assim, eles nunca eram pegos de surpresa, ao contrário do que acontece hoje nas nossas cidades.
 
As aldeias não duravam muitos anos em um mesmo local. Assim que as terras das lavouras davam sinal de cansaço ou que as pragas começavam a atacar as plantações com mais freqüência, era hora de mudar.
 
O milho era o principal alimento cultivado por esses povos. Certamente deviam plantar outros vegetais como tomate, amendoim, cará, batata doce, feijão, pimenta e um pouco de mandioca. Outras plantas como cabaça, algodão e fumo também faziam parte da roça, embora não fossem comestíveis. A presença de rodelas de cerâmica, usadas para tecer o fio do algodão, indica que provavelmente faziam redes, bolsas e sacolas.
 
A maioria das panelas de barro feitas pelas mulheres das tribos desse grupo não tinha decoração. Apenas alguns potes de uso especial possuíam asas, bicos, cabos e alças. Eles ainda podiam ser decorados com linhas finas impressas ou com banhos de barro vermelho.
 
Os potes podiam ter a forma semi-esférica ou de tigelas rasas. Grandes vasos de forma cônica, que lembram uma pêra, eram usados para preparar as bebidas alcoólicas consumidas nas festas da aldeia. 
 
Quando alguém importante da tribo morria, esses vasos eram usados como caixão, que os arqueólogos chamam de urnas funerárias. Foram encontradas, dentro dessas urnas, vasilhas de cerâmica formadas por duas tigelas rasas unidas lateralmente, e outras com forma de cabaça, de uso exclusivamente cerimonial. 
 
Os instrumentos eram feitos de pedra, como machados polidos, usados para a derrubada das árvores da mata. A abertura de clareiras era importante para o preparo das roças e instalação das aldeias. Blocos de arenito (rocha de areia) foram escavados e transformados em pequenos pilões. Pedras arredondadas (seixos rolados) eram usadas como martelos e batedores. Lascas de rocha eram utilizadas como facas, raspadores, plainas, furadores, e outros instrumentos, que serviam para cortar carne, trabalhar a madeira, o osso e as peles dos animais caçados.


            4.2) A TRADIÇÃO TUPI-GUARANI
 
Esta tradição arqueológica define um grupo de horticultores ceramistas que teriam surgido na Amazônia há 3 mil anos. Ela apresenta uma ampla distribuição por todo o território nacional, tendo chegado também às Guianas, ao Paraguai, ao Uruguai e ao norte da Argentina através da navegação dos grandes rios brasileiros. Suas aldeias são encontradas quase sempre próximas a esses rios.
 
A chegada dos TUPI-GUARANI à região do Vale do Rio Doce aconteceu um pouco antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Pelo menos mil anos antes, os povos da TRADIÇÃO ARATU já haviam se instalado por essa região e não permitiram que os TUPI-GUARANI ocupassem seu território.
 
As aldeias se localizavam sempre em áreas de mata, em vertentes suaves, e as roças, nas várzeas dos rios.
 
Além da caça e da coleta, também cultivavam vegetais. Tinham na mandioca a sua principal fonte alimentar, embora usassem também o milho. 
 
As formas características básicas da cerâmica da cultura TUPI-GUARANI são os potes, que têm o corpo com ângulos, e outras vasilhas bem abertas e rasas, semelhantes a grandes pratos, próprias para assar biju ou torrar farinha de mandioca.
 
Feitos para cerimônias, os recipientes de uso especial, apresentavam decoração pintada ou impressa no barro. A pintura desses potes geralmente era em 3 cores: fundo branco com linhas pretas e vermelhas formando figuras geométricas. As marcas impressas mais comuns eram feitas com as unhas (ungulado) ou por beliscões dados no barro ainda mole (corrugado).
 
As tribos sepultavam seus mortos mais importantes em grandes potes decorados (igaçabas em língua tupi), que anteriormente haviam sido utilizados para o preparo de bebidas cerimoniais.
 
Martelos de pedras roladas, quebra-cocos, polidores para osso, lascas para cortar, serrar, raspar, furar e ralar constituíam seus instrumentos de pedra.
 
Machados e cavadeiras (utilizados na derrubada das árvores e preparo da terra para plantio) e mãos-de-pilão (usadas para triturar o milho) constituíam seus artefatos de pedra polida.

 

5)      O ACERVO ARQUEOLÓGICO DA FAZENDA RETIRO DAS ÁGUAS
 
O sítio arqueológico em questão foi descoberto a partir da análise minuciosa de fragmentos cerâmicos que se assemelhavam com pedaços quebrados das telhas de antigo curral existente no local. Ao analisar o material percebeu-se que os mesmos eram formados por cerâmica decorada com pinturas, em diversas espessuras e de cor cinza avermelhada, indicando que as mesmas haviam sido queimadas em fogueiras. Nossa experiência anterior em salvamentos arqueológicos coordenados pelo Dr. Paulo Alvarenga Junqueira (ex-professor do Museu de História Natural da UFMG e atualmente diretor da empresa Arkaios Consultoria) nos ajudou a reconhecer a natureza arqueológica do material encontrado.
 
Localizado no município de Ferros – MG, o sítio arqueológico da Fazenda Retiro das Águas está situado a cerca de 10 metros de distância da sede da fazenda, numa área plana e bem drenada, localizada numa distância de cerca de 50 metros da junção do Rio Tanque com um pequeno afluente pela sua margem direita. O Rio Tanque nasce na Serra do Cipó e se junta ao Rio Santo Antônio a cerca de cinco quilômetros à jusante do sítio pesquisado. 
 
O relevo da área foi esculpido sobre rochas gnáissicas e se caracteriza por consideráveis desníveis marcados pelo contraste entre encostas de declividade média a alta com as planícies ribeirinhas ocupadas por aluviões e rampas de colúvio. A altitude local varia entre 420 e 780 metros.
 
Predominam na região os solos cinza-rosados oriundos da decomposição do gnaisse e os colúvios marrons argilo-arenosos. A cobertura vegetal do passado era de mata tropical mas hoje em dia encontra-se ocupada por pastagens e culturas. Acredita-se que boa parte da floresta original da baixada do Rio Tanque tenha sido destruída desde a época dos habitantes pré-históricos para a formação de plantações.
 
O clima tropical quente e úmido da região apresenta um índice pluviométrico variado, com média anual superior a 1.200 mm, sendo as chuvas concentradas nos meses de outubro a março. A temperatura média anual oscila entre 21ºC e 23ºC, com a máxima dificilmente ultrapassando os 35ºC.
 
Por causa da ótima qualidade dos solos, a área das baixadas do rio é utilizada, até hoje, para a agricultura com plantio de milho, feijão, hortas, pomares, cana-de-açúcar e forrageiras. Acredita-se que estas áreas eram plantadas desde as épocas pré-históricas.
  
No sítio descoberto foram encontrados, até agora, uma grande quantidade de fragmentos cerâmicos dispersos numa área de cerca 3.000 m². Este aldeamento está assentado na porção meso-inferior de vertentes de pouca declividade, próximo do pequeno curso de água que abastece atualmente a fazenda de água potável. 
 
As várzeas férteis ao redor do sítio parecem ter sido usadas pelos tupi-guaranis para plantio de lavouras de tubérculos (mandioca). A presença de vasilhas cerâmicas próprias para o preparo de farinha de mandioca (pratos) pode confirmar esta postulação. Até hoje na fazenda se produz enormes tubérculos de mandioca que surpreende a todos pelo grande tamanho e ótima qualidade.
 
Fragmentos de artefatos líticos lascados como quartzo indicam a presença de um ateliê de lascamento para fabricação de objetos cortantes. Foram encontrados também seixos arredondados de quartzo, possivelmente utilizados como batedores. Foram encontrados dois machados de hematita compacta polida que, segundo os arqueólogos, representam objetos de uso cerimonial.
 
Foram vistas significativas quantidades de amazonita (feldspato verde) que era usualmente utilizado pelos tupi-guaranis da região para o fabrico de adornos labiais e de orelha, além de pingentes finamente elaborados. Foi achado um pingente piramidal em bom estado 
 
Entre os tipos cerâmicos encontrados haviam fragmentos pintados, com engobo branco, faixas vermelhas e linhas pretas. Na decoração plástica predominava o ungulado, seguido do corrugado e por último do ponteado.
 
A amostragem reduzida, a ausência de escavação sistemática e a alta fragmentação dos cacos cerâmicos não permitiram ainda que as formas das vasilhas fossem reconstituídas, mas é comum nos utensílios desse grupo a presença de trempes e vasilhas bastante abertas, próprias para manejo de farinha de mandioca. Esse tubérculo é o alimento básico de subsistência desse grupo reconhecidamente belicoso e afeito à canoagem, meio de locomoção que os auxiliou a marcar presença em praticamente todos os rios navegáveis do leste do Brasil. Parece então que o Rio Tanque não deixou de ser navegado por sua canoas. 
 
Foram datados os fragmentos de cerâmica do sítio pelo método de termoluminescência. A idade apurada foi de 660 anos, isto é , mais de 150 anos  antes do Descobrimento do Brasil. Acredita-se que esta datação, aliada à escavação sistemática do sítio (coisa que pretende-se fazer em breve através de uma universidade), possam revelar decisivamente o modelo de habitação pré-histórica daquele vale afluente do Rio Doce. 

Como a Cultura Tupi-Guarani habitava basicamente o litoral brasileiro, é de se estranhar a presença deste sítio tão longe do litoral numa época em que eles ainda não estavam fugindo para o interior devido à chegada dos portugueses.
 

15/12/2014