Geólogo
Montanhista
Ambientalista

Mountain Voices

Para esta edição do Mountain Voices conversei com um montanhista que tem muita história pra contar e como somos todos loucos por histórias de montanha acho que será uma conversa muito agradável. A vida dele se funde com a história recente do montanhismo brasileiro, são 48 anos de idade sendo 35 dedicados às montanhas, com mais de 2500 excursões, mais de 320 vias conquistadas em rocha, 54 cumes virgens e picos nevados, alguns com mais de 6000 m, incluindo Andes, Alpes, Pirineus e Antártica. Pioneiro e descobridor de inúmeros centros de escalada do país, entre outros: Morro da Pedreira (Serra do Cipó – MG), Serra do Lenheiro ( São João Del Rei – MG), Pedra Branca (Caeté – MG), Aderências de Timóteo – MG, Pontões de Jacinto / Rubim – MG, Fendas de Guaratiba (RJ), Parede dos Ácidos (RJ) e Contraforte do Pão-de-Açúcar (RJ). Pioneiro também na utilização de nuts no Brasil, tendo conquistado uma das primeiras vias esportivas em móvel (Fissura Tropical – 1979 - VIsup) com José Luiz Losada e uma das primeiras grandes paredes em móvel (Chaminé Macacu – 1981 – 400m – 6 VI E4/E5) com Ricardo de Moraes.

Para os que o conhecem as referências acima, são suficiente para identificar, para os que ainda não o conhecem, vamos conversar um pouco com o montanhista, ambientalista, escalador, conquistador e precursor de muitos: Tonico Magalhães.
Geólogo de formação, carioca de nascimento, reside em Belo Horizonte desde 1985, onde trabalha. Atuante em questões ambientais foi um dos responsáveis pela criação, entre outras, da APA (Área de Proteção Ambiental) do Morro da Pedreira nas imediações da Serra do Cipó em Minas Gerais, considerada uma das maiores APAs Federais do país, possuidora de notáveis cavernas e um dos melhores centros de escalada em rocha do Brasil.
 
Tonico, suas conquistas em rocha começaram em 1977 e a não ser pelo ano 1985, até hoje você conquistou, em geral, mais de dez vias de escalada por ano sendo a última (Pr. Testa de Aço -Parede de Aço - MG) , em 28 de outubro de 2007. Somando um total de 328 vias e 54 cumes virgem em mais de 30 anos. Você nunca parou de escalar. Fale um pouco sobre o inicio, as primeiras conquistas, como a Face Oposta do Escalavrado - P.N.S.O. e Paredão Gil Sobral Pinto - Pedra da Cruz em 77, Paredão Genesis – Pico da Tijuca em 78,  Paredão Ás de Espadas (RJ) em 79, Paredão Pedra que Chora – Petrópolis em 83. Além claro da Fissura Tropical em 79 e Chaminé Macacu em 81. Como era a escalada brasileira nesse final de anos 70 e 80?
A escalada nos anos 70 e 80 se caracterizava pela falta de material. As cordas, mosquetões, cadeirinhas, etc, eram de difícil aquisição uma vez que quase não existiam fabricantes nacionais adequados. As atuais sapatilhas eram inexistentes no Brasil e escalávamos de tênis, normalmente de quichute com as travas dianteiras cortadas. O magnésio não era conhecido até o princípio dos anos 80. O resultado disso é que a escalada tornava-se muito mais difícil. Hoje tento escalar com tênis e sem magnésio e não saio do lugar. Um lance de quinto grau, por exemplo, passa a ficar bem mais difícil. Muitas vezes fiz escaladas consideradas difíceis até hoje, como por exemplo o Lagartão e o Secundo no Pão de Açúcar, Face Leste do Pico Maior de Friburgo, com corda na cintura, de tênis e sem magnésio. Não sei como conseguia... 

As escaladas daquela época eram as que hoje consideramos escaladas clássicas, onde o sabor da aventura era o melhor ingrediente. Não existiam as escaladas esportivas e menos ainda a competição em muros. Até hoje prefiro escalar com boa dose de aventura. 
Historicamente, depois do declínio da velha geração inovadora do Centro Excursionista Carioca do princípio dos anos 70, encabeçada por Rodolfo Chermont e Jean Pierre Von der Wied, no final dos anos 70, o clube da moda no Estado do Rio passou a ser o Centro Excursionista Petropolitano, de onde sou sócio até hoje. Depois de uma briga no CEB em 77, para lá se dirigiram vários escaladores de ponta da época tais como André Ilha, Dario dos Santos, Otávio Vasconcelos, dentre outros. Depois, uma nova safra, iniciada em 79/80, se juntou à nossa no CEP com Alexandre Portela, Sérgio e Giovani Tartari, etc. Este grupo pode ser considerado, a grosso modo, como a espinha dorsal da escalada carioca dos anos 80. 

Vamos então falar um pouco sobre as vias que você pergunta. A Face Oposta do Escalavrado foi a segunda via daquela montanha na Serra dos Órgãos em Teresópolis. A equipe era eu, Mário Arnaud e André Craveiro (estes dois conquistaram anos depois a Via Italianos no Pão de Açúcar). Era o mês de julho de 77 quando nós três subimos os 560 metros da via em um dia apenas. Dormindo no cume com um frio terrível e felizes. Esta foi a minha primeira conquista no estilo aventura, com dezoito anos de idade. A via nunca foi repetida, teve apenas uma tentativa do Sérgio Tartari, impedida pela chuva.

O Paredão Gênesis foi conquistado com o Ricardo de Moraes no Pico da Tijuca no Rio em 78. Era muito divertido, saíamos de casa à tarde, dormíamos na Floresta da Tijuca, normalmente na varanda da simpática Capela Mayrink. No dia seguinte batíamos grampo até não poder mais. Certa vez, após mais uma investida de conquista, voltamos pela trilha pegando vários atalhos devido à pressa para chegar em casa. Lá pelas tantas percebemos que o atalho que havíamos pegado tinha se acabado na mata. Como já tínhamos descido muito resolvemos continuar varando mato e descendo sempre. Que roubada, chegamos já de noite em algum lugar em Jacarepaguá que até hoje não sei onde fica... Foi-se o compromisso em casa...

Por falar em Ricardo de Moraes, foi com ele que conquistei o Ás de Espadas no Pão-de-Açúcar (juntamente com o Paulo “Bruxo” 60) e a Chaminé Macacu (em Cachoeiras de Macacu). O Ás de Espadas, nome dado pelo Ricardo, foi um marco em 79. Era muito técnico para os calçados de escalada disponíveis na época. Até hoje é considerado uma das Escalada-Símbolo da Urca. Foi a primeira via daquela face da montanha. O traçado projetado, até dois terços da via, quase não possuía vegetação na pedra e isso nos motivou a conquistá-la uma vez que aquele “corredor” sem vegetação, com agarrinhas pequenas, mostrava-se tentador! Levamos bastante tempo para conquistar devido à dificuldade de parar naquelas agarras para bater os grampos. No princípio dos anos 80 guiei a via totalmente em livre com sapatilha e magnésio, foi uma grande emoção...

A conquista da Chaminé Macacu, fenda impressionante localizada na Pedra do Colégio em Cachoeira de Macacu, foi algo de inimaginável para mim na época. Foi conquistada em março de 81, junto com o Ricardo. Juntamos todos os móveis que tínhamos, desde hexecentrics e nuts de cabo, até artefatos caseiros. Não existiam friends ainda no Brasil.  Partimos para aquela via armados com o que tínhamos e dispostos a terminá-la em um dia apenas usando o máximo de nuts. O resultado é que conseguimos o nosso objetivo subindo os 400 metros da fenda apenas com nuts.  A conquista de uma via tão longa, difícil e exposta (6 VI E4/E5) com  o uso exclusivo de nut, foi muito marcante para a época. Pelo que me consta esta via foi repetida apenas uma vez em cordada guiada pelo escalador Sérgio Tartari.
 
Considerando que você se manteve fiel e ativo ao montanhismo desde então, o que se mantém imutável nas montanhas pra você e o oposto a isso, o que mais mudou?

O que se mantém imutável nas montanhas é o interesse, que ainda persiste, pela escalada clássica e aventurosa. Felizmente ainda existem escaladores que buscam conquistar um cume virgem, fazer vias em locais distantes e selvagens, aproveitar uma fenda para escalar em móvel, curtir um nascer ou um pôr do sol, tomar um banho de cachoeira após escalar, coisas deste tipo... Já o que mais mudou na montanha é o que vem se alastrando de forma tola em várias unidades de conservação brasileiras - a obrigatoriedade de se contratar um guia local para entrar. Esta prática desrespeita e ignora a atuação quase centenária da atividade excursionista brasileira organizada que ao meu ver deveria ser convidada a estar totalmente engajada nesta questão. Obrigar um montanhista experiente, ou de clube, instruído e responsável a andar com uma pessoa despreparada é o fim da picada, literalmente. Tenho tido muita preguiça de freqüentar locais onde esta prática exista e sinto não ter tempo de brigar mais para que isso seja minimizado.
 
Em 1984 você descobriu o potencial da Serra do Lenheiro (São João del Rei – MG) e em abril do mesmo ano conquistou as primeiras seis vias móveis em companhia de André Ilha, com destaque para as Fissuras Spartacus (IV) e Dança Macabra (V), e em 2000 descobriu e tornou-se o maior conquistador do que considera o Último Grande Reduto de Pães-de-Açúcar Virgens do País, localizado nos municípios de Jacinto e Rubim em Minas Gerais, onde você conquistou até o momento 24 cumes através de vias bem extensas localizadas nas principais montanhas. Conte um pouco sobre estes “achados” e sobre suas escaladas em Minas Gerais.

Em janeiro de 84 eu estava fazendo uma atividade de campo para meu curso de mestrado em geologia na região do Sul de Minas quando conheci o lado oculto da Serra do Lenheiro. Digo oculto porque a face não é visível da cidade de São João Del Rei. Quando olhei pela primeira vez para a parede das vias quase caí para atrás. Eram muitas fendas e um potencial para escaladas móveis impressionante. Existiam apenas duas vias grampeadas feitas pelo batalhão do exército da cidade, para treinamento de montanha. Não demorei e convidei o André Ilha, meu companheiro desde 70, para me acompanhar na tarefa de fazer as primeiras fendas em móvel do local. Em abril daquele ano conquistamos as primeiras seis vias com o uso de nuts. Hoje, para nosso orgulho, o Lenheiro é conhecido como um dos melhores locais para escalada móvel de Minas e sede de memoráveis encontros de escaladores. 

A história das escaladas em Jacinto e Rubim (baixo vale do Rio Jequitinhonha) é bem interessante. Nos anos 70, eu estava num ponto de ônibus no Rio de Janeiro, com mochila e corda nas costas quando um homem me abordou perguntando se eu gostava de escalar. Após escutar minha afirmativa ele disse: “já que você gosta de escalar montanhas, tem que conhecer Rubim em Minas Gerais”. Aquele nome ficou gravado na minha cabeça. Em 99 durante um trabalho de campo geológico nas imediações, vi uma placa indicando – Rubim... Não perdoei, peguei a camionete e fui conhecer o local num domingo. Lá chegando novamente tomei outro susto. Eram muitos pontões graníticos nos arredores, a maioria até sem nome. Fiz um breve reconhecimento da região e constatei que deveriam existir mais de uma centena de montanhas virgens. Era tudo o que eu precisava para me alimentar do prazer das montanhas nos muitos anos vindouros. Em julho de 2000 novamente levei o André Ilha, e a Kate Benedict, para estrear o local e conquistamos duas espetaculares montanhas – A Pedra do Salão e a Pedra da Macambira. Daí para frente passei a ir duas vezes por ano para lá, escalando também as montanhas de Jacinto, cidade vizinha. Já conquistamos no local 24 montanhas virgens, além de muitas vias isoladas, com destaque para a Pedra Misteriosa, uma das montanhas mais bonitas que conquistei. Meus companheiros de conquista mais assíduos no local são: meu filho Juliano Magalhães, Daniel Mariano, Fábio Cotta e Paulo Bandeira.

O potencial do local não está nem arranhado com as nossas conquistas e certamente muita diversão há de dar para nós nos próximos anos, notadamente no estilo escalada aventurosa. 

Recentemente conseguimos através de amigos entusiastas da cidade de Jacinto, secretário Sílvio Oliveira e o prefeito Antonio Martins, a transformação da área onde ficam as montanhas (20 x 40 km) em várias APA’s municipais e agora buscamos apoio para a criação de um Parque Estadual ou Nacional,  mais do que merecidamente, em função da importância do acervo natural.

Muitos outros trabalhos de conquista em Minas podem ser citados. Vou falar rapidamente sobre dois: as vias móveis da Serra do Cipó e as Paredes de Aço em Ferros.

Em 86, logo depois de sair do Rio e vir para Belo Horizonte trabalhar, conheci a Serra do Cipó numa excursão para ver cavernas. Na ocasião, percebi a grande quantidade de fendas no calcário de lá (Morro da Pedreira). Daí em diante comecei a conquistar compulsivamente vias móveis no local com os primeiros escaladores da atual geração mineira, meus alunos. Foram mais de 60 vias. Hoje o Cipó pode ser considerado o maior ponto de escaladas móveis do país, sem contar a qualidade e fama das vias esportivas grampeadas.  
Recentemente adquiri uma fazenda nas imediações da cidade de Ferros (170 km de BH). Dentro da propriedade, para meu deleite, encontrei o que denominamos Parede de Aço. Trata-se de uma fantástica escarpa granítica com cerca de 350 metros de altura máxima onde já foram feitas cerca de 30 vias. Este é o meu xodó atual...
 
Como conquistador da maioria das vias móveis no Complexo do Baú (Pedro Leopoldo – MG) como Doce Vida – VIsup e Até o Fim – VIsup, qual sua opinião quanto ao fechamento do local, propriedade privada e valioso patrimônio da escalada mineira? Você acredita na atuação da comunidade de montanha para reverter quadros deste tipo no Brasil?

Foi realmente doloroso ver o Baú e a Lapinha serem fechados para a escalada. No caso da Lapinha foi pior, a prefeitura de Lagoa Santa fechou arbitrariamente o local sem motivo algum, por sugestão de uma arqueóloga que lá trabalha. Achou-se que a atividade de escalada impactava sensivelmente o ambiente cárstico. Depois de tentamos convencer do contrário, nada foi feito e a coisa continua. Sobre o Baú é a mesma coisa. Alegou-se que o IBAMA fechou a área sem motivo e sem estudo. Agora estamos diante de uma situação complicada para comprovar que o excursionista pode ajudar na preservação da área e não a impacta significativamente. A solução poderia passar por liberar acesso controlado para membros de clubes excursionistas sérios. Isto fortaleceria as entidades e voltaria a abrir as portas das áreas “proibidas”. 
 
Para finalizar, três perguntas em uma: Melhor lembrança de montanha? Maior arrependimento? Planos?
Não tenho melhor lembrança, é uma pergunta muito difícil de responder para quem gosta da montanha. Toda excursão, em geral, nos dá uma boa lembrança. Por outro lado, não tenho arrependimentos. Meu pai sempre procurou me dizer para agir na vida de forma a não me arrepender depois. Assim procuro fazer...
Tenho um plano especial para breve – escrever um livro de memórias da montanha, coisa que já iniciei.

15/12/2014